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Jair Bolsonaro takes office as Brazil’s President

Eram o quê? Umas cinco da manhã? Fazia meia hora que a Ana tinha botado a Julinha pra dormir. Aquela criatura tinha uma garganta mais fodida do que um bezerro sendo abatido. Dizem que meninos são menos escandalosos. Deve ser verdade. Meu pai fala que só nasce menina quando o marido tem esperma fraco. Eu tenho três irmãos. Se meu próximo filho for mulher de novo nunca mais vou conseguir olhar meu pai nos olhos.

Bem, achei que finalmente ia conseguir tirar um cochilo, mas tinha esquecido de desligar o celular. Então Fábio mandou mensagem. Lá do outro lado do apartamento, de uns mil quilômetros de distância, Júlia ouviu o toque e abriu o berreiro de novo. Ana ainda quis me mandar ir ver o bebê. Não sabia que eu tinha trabalho dali a menos de duas horas? Sei que ela também tinha. Mas Ana é professora. Molezinha, só chegar na sala e enrolar os alunos. Não tem meta, não tem venda, e o principal: não tem o Geraldo fungando no cu dela! Mas o babaca ia ver. Virada do ano vai ter reestruturação, remanejamento de pessoal. Tô fechado com o gerente regional e Geraldo vai cair. Manda enquanto pode, seu escroto.

Mas daí me lembrei da planilha e perdi o sono de vez. Fingi que tava dormindo pra Ana parar de me encher o saco, mas fiquei lá todo enrugado na cama. Meu coração parecia que tava no estômago. Eu podia ouvir o barulhinho do ponteiro dos segundos se mexendo mesmo com Júlia esperneando. Rezava pro sono vir e nada. Apelei pro crucifixo grudado no peito. O Senhor sempre me apoiou. Jesus tinha me dado tudo que tenho: o emprego, a casa, minha família. Deus recompensa os bons.

O fato é que eu adulterei a planilha. Porra! O que vocês querem? O mercado tá uma merda. Ninguém tá vendendo nada. E o Geraldo ainda dobra a meta? Mesmo depois de eu ter batido a do mês anterior? Nazista filho da puta. Tinha que ser preto. Quer dizer, não sou racista. Tenho vários amigos negros. Mas o cara pede, né? Deve ser tentativa de vingança porque eu sou branco. Nada a ver. Somos todos iguais perante Deus. É essa gente comunista que tá estragando o país com papo de minorias. Também sou minoria! Todo mundo me zoava na escola, eu era o gordinho branco azedo. E não morri por causa disso. Tudo é questão de saber se impor!

Não conseguia mesmo dormir e resolvi olhar a mensagem do Fábio. Tava agradecendo de novo a vaga de emprego que consegui pra esposa dele. O cara acabou de casar e tá todo apaixonadinho. Quero ver daqui a um ano. Ah! Eu quero ver! Não vai nem olhar pra cara da mulher. E olha que ela é maior gostosa. Por que tu acha que eu arranjei a vaga? É claro que mulher de amigo meu é homem. Mas pô, ninguém é de ferro, se ela der mole tu vai fazer o que? Tu é viado? Eu não sou! Passo o cerol. Mulher puta tem que ser tratada como puta. Foda-se.

Nem respondi a mensagem. Só pensava em duas coisas: 1- hoje ia ser o primeiro dia dela e eu tava curioso pra saber a roupa que ela ia usar e 2- a porra da planilha que eu tinha que entregar pro Geraldo. Se ele sacasse a contravenção que fiz minha cabeça rolava e podia dar até polícia (mas péra! Contravenção, não! Eu tava no direito de legítima defesa. Alterar uns números aqui e ali não ia matar ninguém. E depois eu acertava tudo quando fechasse as próximas vendas).

Não adiantava, o sono não vinha. Peguei a Taurus .40 que deixo embaixo do travesseiro, guardei no criado mudo e fui tomar banho. Ana preparava o café pra mim. Que, diga-se de passagem, tava ruim pra cacete. Comi um pão na padaria do condomínio (aquele novo da barra, logo depois da Alvorada) e parti.

Coloquei minha Taurus .40 no porta luva. Nossa! Como eu gosto de pegar naquela coisa. Preenche minha mão todinha. Eu pareço o dono do mundo. Gostoso demais. Não sei qual é dessa frescura das pessoas de bem não poderem se defender. “Ah! Vai morrer mais gente”. Mimimi. Vai morrer quem tá errado, quem anda no certo só quer se defender. E eu moro no Rio de janeiro, cara! Rio de janeiro, sacou? Aqui é atira primeiro e pergunta depois. Se um pretinho desses que fica em sinal vier de graça toma logo chumbo no meio da cara. Nunca fui assaltado. Dá pra saber porquê, né?

Queria chegar cedo pra deixar tudo montadinho então afundei o pé na Niemeyer. Não adiantou muito. Engarrafamento do caralho. Meu pai falava que aqui antigamente não passava ninguém. Hoje a zona sul virou essa barbárie. Fazer o que? Pobre anda até de avião. Tá cada vez mais difícil, viu?

Daí que fui cortando e desci ali no Leblon acima do limite de velocidade. Qual é? Quem nunca fez isso? O babaca do guarda tinha que me parar? Logo eu? Um monte de calhambeque velho com IPVA atrasado e ele parou logo meu corolla? Tá certo, queria faturar alto. Esse é o Brasil, minha gente.

Abri o vidro e percebi logo. Era garoto novo. Querendo mostrar serviço. Falei que tava atrasado, mas ele pareceu não ouvir. Então pedi pra chamar o superior dele. Ele ignorou e pediu os documentos. Pensei em mandar logo um fuck off, mas ele não sabia inglês. Abri o porta luva e a Taurus rolou pra fora fazendo um som oco quando bateu no chão acarpetado. Porra. O guardinha me pediu para sair do carro. Eu disse que não. Ele encostou a mão direita no coldre e a esquerda na maçaneta. Eu gritei pra ele não tocar no meu carro. O colega dele virou a cabeça e veio em nossa direção. O garoto falou outra coisa que não entendi. Eu baixei pra pegar a Taurus. O moleque puxou a arma e apontou pra mim. Um moleque! Um bostinha fardado! Um corrupto salafrário apontando a arma pra mim! Levantei os braços só por precaução, não porque estivesse com medo, e gritei de novo. Disse que aquilo era abuso de autoridade. O parceiro dele chegou e mandou o moleque baixar a arma. Finalmente alguém sensato. Pelo semblante do cara percebi que a gente ia se entender. Ele olhou para dentro do carro, viu a Taurus e me encarou.

— Desculpa meu colega, ele é novo.

— Posso pegar? – Apontei pra arma.

— Claro, patrão. Aproveita e pega a documentação também. Desculpa, é o procedimento.

Entreguei o documento do carro.

— Escuta, chefia, tô atrasado pro trabalho.

— Claro, claro. Mas preciso do documento da pistola também. Desculpa, é o procedimento.

Peguei a carteira e puxei uma nota de cem escondida na palma da mão.

— Sabe, meu parceiro é chato pra caramba, vai ser meio difícil me livrar dele… Desculpa, é o procedimento.

Soltei um “porra” meio pra dentro e peguei mais uma de cem. Deixei as notas caírem no chão só pra ver o babaca se curvar diante de mim.

— Tá liberado, patrão. Belo carro, hein.

Arranquei sem responder. Por isso que esse país não vai pra frente. Bando de safado. E pior que tinha um monte de gente vendo. Todo mundo lá olhando. Na calçada. Carros passando. Todo mundo lá olhando. Bando de filhos da puta. Por causa de gente assim que a zona sul tá essa decadência. Mas o gerente regional vai me passar pra Barra logo, logo. Aí quero ver o Geraldo tirar onda.

Estava atrasadão e o Geraldo a essa hora já devia estar salivando, louco por qualquer desculpa pra comer meu fígado.

A escrotinha da secretária dele nem me deu bom dia. Suburbana escrota. Só porque dei em cima dela. Não entendo isso, devia se sentir lisonjeada. 

A esposa do Fábio vinha em minha direção. Nossa! Quase esqueci que tava puto de tanto o Fábio me ligar. O cara levou meses me enchendo o saco pra eu conseguir aquela vaga. Quando vi a Roberta lembrei porque me arrisquei com Geraldo pra contratar a garota: que gostosa! Ela me abraçou e eu devolvi todo sério, sem querer dar na pinta que eu sabia que era o super-herói dela. Ela se despediu toda cheia de sorrisos e um pouco nervosa. Essa eu ia traçar, hein. Mas eu fiquei me perguntando por que a boca dela tava cheirando tão mal.

Corri pra sala do Gegê com a pasta na mão. Ia dar tudo certo. O cara já veio com aquele sorriso largo e falso. O que eu não aguento no meio corporativo é essa falsidade. Um comendo o outro. Se nego fosse mais unido o trabalho rendia melhor. Daí ele veio com o mesmo papo de quando me contratou, como eu era um moleque inexperiente e ele me fez crescer etc. Mas depois, quando entreguei a planilha, ele me olhou e falou, repetindo a expressão nojenta de sempre:

— Se ficar em menos de 80% de novo corto tua cabeça. Dessa vez de verdade. Não cortei das outras vezes porque tua mulher é maior gostosa e aquele biquíni que ela usa nas festas da empresa tiram meu sono – E dava uma piscadinha escrota.

Eu sempre ouvia sem dizer nada. Mas hoje pensei na Taurus .40 na gaveta da minha mesa. Toda aquela cena com os guardinhas tinha despertado meu espírito selvagem. Tentei me concentrar no gerente regional. Logo meu martírio ia acabar. Escritório de frente pra Sernambetiba, equipe só pra mim, e nada de Geraldo. Engoli o ódio e não respondi. O negão percorreu os olhos sobre a planilha e resmungou um:

— Ok. Vou analisar isso com calma.

Eu tentei dizer alguma coisa, mas ele ficou mexendo no computador e me deixou falando sozinho como sempre.

Pensei em bater a porta quando saísse, mas não fiz.

Sentei na minha mesa. Abri a gaveta e senti a Taurus de novo. Nossa! Aquilo me acalmava! Me acalmava muito. Apertava o cabo dela e deslizava a mão devagar até o cano. Gelado gostoso. Ficava imaginando como ela ficaria depois de um disparo: quente como um rojão. Encaixei o dedo indicador no gatilho e deixei ali um tempo. Fechei os olhos e meditei um pouco. 

Voltei a mim com uma batida na porta. Dei um pulo e fechei a gaveta. Era Roberta. Com aquela saia justa e camisa branca de botão que deixava à mostra metade dos seios. Nada daquela ninharia da Ana. Os peitos da Ana são estilo ovo frito. Roberta tinha peitos de verdade. Me recompus. Ela queria me dizer alguma coisa, mas se limitou a agradecer e sorrir sem parar. Saquei tudo. Ela queria me dar a boceta, mas não sabia como dizer. Não banquei o desesperado. Sabia que aquele jogo tava ganho então resolvi tocar a bola de lado um pouquinho e me divertir. Puxei um papo qualquer, mas ela estava nervosa demais.  Deixando as coisas caírem. Fiquei com pena da menina, era novinha, não devia saber como trair o marido. Tudo bem, eu ia ensinar direitinho. Mas com calma. Disse que tinha muito trabalho e pedi educadamente para ela sair. Ela foi rindo, mas um sorriso nervoso, sabe? Eu gostei daquilo. Adoro as tímidas.

Dois minutos depois que ela saiu o Fábio me liga:

— A Roberta falou contigo?

Porra! O Fábio tava sabendo? Que doideira. Não sabia que ele era desses. Um swing! Ia realizar meu sonho. E daí se tivesse que levar a Ana? Dane-se! Tá mesmo toda estragada depois que teve a Júlia.

— Não, ela não falou. O que é?

Claro que eu fingi que não tava sabendo. Quis deixar o cara dar o primeiro passo. Achei o mais educado a se fazer.

— Pô, primeiro eu quero te pedir desculpas por ter te incomodado tanto…

— Que isso, somos amigos…

— E claro, te agradecer demais. Sei dos riscos que você corre aí na agência com o teu chefe e tal, mas essa oportunidade vai ser de ouro pra Júlia. Ela vai crescer muito.

— Todos nós, amigo. Todos nós vamos crescer.

Fiz um tom meio sacana pra ele perceber que eu já tinha entendido, mas acho que ele não notou. É meu mal, sou um cara muito bom, minha mãe sempre falou isso, não consigo passar por escroto.

— Mas cara…

Ele demorou um pouco e eu ajudei:

— Diga, Fábio.

— Então – outra pausa – Bem, vou fazer o seguinte, como tô perto, passo aí agora. É um lance bem delicado, melhor falar pessoalmente.

Concordei com ele. O cara devia querer acertar algumas coisas, um tipo de contrato verbal. Entendi o Fábio. Seria melhor combinar aquilo olhando no olho. Foi engraçado. Tive uma ereção na hora. Daquelas que eu não tinha há muito tempo.

CONTINUA…

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