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Jair Bolsonaro takes office as Brazil’s President

Meia hora depois Fábio apareceu. Levantei da mesa sorridente. Servi um copo de água e um de café. Ele rejeitou, mas eu servi mesmo assim. O cara tava bem nervoso e eu tentei manter o ambiente descontraído. Até botei um jazz no spotify pra dar um clima ameno. Já tava pensando em tudo: Na casa dele seria melhor porque não tinha criança. A gente deixava a Julinha com minha mãe. E ia levar o chicote que comprei e a Ana nunca deixou usar nela. Tá vendo? Por isso que marido procura puta. A mulher não satisfaz o cara em casa. Vai dizer que tô errado? Esse papo de feminismo é coisa de mulher mal comida. 

Fábio começou a falar, mas ele tava dando muita volta.

— Amigo, a gente se conhece há um tempão. Pode ir direto ao assunto. Eu já tô ligado no que é.

— Já?!

— Claro.

— E não tá nervoso?

— Claro que não.

Quando eu ia explicar que a Ana podia ser um problema, mas nada que eu não pudesse contornar, o telefone tocou. Era o gerente regional. Atendi:

— Sim, chefe. Tudo, e você? Ha ha ha! Boa. Anh? Ah, sim. É, tá indo. … Ok. Sim, ok. … Mas, por quê? … Sim, entendo. … mas o Geraldo nunca quis ir pro escritório da Barra. … não, claro que entendo, o Geraldo merece. … sim, sim, vou ter outras chances. Não vou desistir. … sim, sim, essa empresa é minha vida.

O idiota do Fábio deve ter notado minha cara, ela devia tá mudando de um branco gélido para um vermelho ódio. Mas tentei manter a compostura. Tentei respirar. Pelo menos ia foder a mulher do otário do fábio, e melhor: na frente dele.

Eu bebi um copo de água inteiro, sem intervalo.

— Então, acho melhor eu voltar outra hora.

— Que isso! Tá maluco!? – tentei sorrir – Fala aí o que você tem de tão importante.

Pra tentar acalmar o ódio que subia pelo peito eu comecei a visualizar a Roberta de quatro e eu metendo o pau naquele rabo lindo. Meus lábios até conseguiram formar um sorriso verdadeiro.

— Você tá tranquilo, né?

— Tô, cara, mas desembucha logo.

— É que a Roberta…

— Sim, o que tem ela?

— Ela tá grávida. A gente vai ter um filho.

O filho da puta até riu. Ele riu. Tipo: vou ser pai, minha vida vai mudar, vou me tornar um homem completo… e todo esse papo babaca de hippie. Puta que pariu! Era isso?! Isso? Não vai ter swing? Não vai ter a Roberta de quatro naquele sofá brega deles? O que vai ter mesmo são oito meses de licença maternidade?! De uma funcionária que EU insisti em contratar, contrariando até o Geraldo? Era isso?!

— Tu fez de propósito não foi?

— O quê?… você não…

— Vocês fizeram de propósito! Você e aquela putinha!

— Tá maluco, cara!

— Maluco tão vocês! Tu pensa que essa porra vai ficar assim? Porra, tu me fodeu, cara! Tu me fodeu bonito! Oito meses de licença! Pra uma funcionária que eu ACABEI de contratar! Tu meteu no meu cu, cara! Vou pra rua na certa! Tu não pensa na empresa, não!? Ah! Não pensa mesmo. Mas eu que tô errado. Eu já devia saber. Vocês dois e essas ideias esquerdistas de merda. Só falam merda. Nunca estudaram, só repetem frase de efeito do facebook. Eu ralei pra caralho pra chegar aqui! Tem que respeitar a empresa! É o empresário que dá o emprego, sem ele a economia do Brasil não gira. Vocês são burros, é?!

Claro que a essa hora eu já tava gritando, mas foda-se. Levou pouco tempo pro idiota do Geraldo aparecer.

— Que zona é essa?

Não respondi de cara porque pensei em contornar a situação. Mas lembrei do FDP do gerente regional dando minha vaga pro negão e resolvi que era hora de chutar o balde.

— Vai se ferrar! – Foi o que consegui dizer.

Geraldo não respondeu nada. Olhou para o Fábio. Depois olhou pra mim e me esticou a planilha.

— Ia falar contigo só quando a polícia chegasse – sua voz era irritantemente calma – Mas como você já levantou a tenda do circo, acho que posso soltar os leões.

Eu tremi um pouco, mas não deixei o ódio ir embora. O ódio era minha única defesa honrosa naquele momento. Levei a mão até a gaveta e abri. A Taurus brilhava lá dentro. Linda.

— Anos maquiando os resultados! Anos! – Falou baixo. E então gritou: – Que porra é essa, seu corno?! Cadê a grana das sub-contas de reserva?!

Qual é? Ele não podia tá falando sério. Aquela grana não era de ninguém. Era caixa dois do brabo. O que eu fiz nem podia ser chamado de crime. E depois de toda a minha dedicação à empresa aquilo era mais do que merecido.

Fábio se encolheu e tentou passar pela porta.

— Quem é esse cara?! – Apontou pro Fábio – Fica aí! Vou ligar pra polícia agora. Tu tá fodido, irmão!

Puxei minha amiga. Seu peso era perfeito. Seu design resplandecia. O horror nos olhos de Fábio e de Geraldo quase me fizeram gozar.

— Quem tá fodido é você, seu negão de merda!

Apontei bem pro meio do peito dele. Ia ser bonito. Fábio tentou sair de novo e dessa vez foi minha hora de berrar. Mirei bem na testa dele e uma coisa muito engraçada aconteceu. O cara se mijou todo. Escorreu pela calça jeans, entrou no sapato e transbordou pelo chão.

Eu gargalhei. Então peguei o telefone e liguei pro ramal da Roberta. Os dois canalhas continuavam paradinhos. De mãozinhas pro alto igual duas gazelas. Mandei a puta vir na minha sala.

— Deixa minha mulher…

— Cala a boca, mijão!

Roberta logo apareceu com aquele sorriso nervoso. Quando viu a arma começou a chorar. Gritei, mandando fechar a porta. Ela abraçou o Fábio.

— Nosso filho, cara. Deixa nosso filho fora disso.

Fábio tentou falar grosso, mas soava patético.

Comecei a fazer um discurso. Não lembro muito bem o que era. Mas joguei tudo na cara daqueles três. Não sabia exatamente o que fazer depois daquilo, mas isso não me incomodava muito. Só queria deixar os três cagados de medo. Só isso já era o suficiente pra ganhar o jogo. Coloquei a arma na cintura só pra comprovar que eu não precisava apontar a pistola e ainda assim provar minha superioridade. Continuei falando. Os três ficaram lá paradinhos, escutando meu sermão.

Daí quando fui puxar a arma aconteceu uma coisa que eu não entendi. Um estampido seco. Seguido de uma dor estranha no meu pé. Uma dor que parecia um ferrão muito comprido de um mosquito, mas que em menos de um segundo se alastrou pelo pé todo e fez parecer que ele ia queimar e depois explodir. Olhei pra baixo e o sangue jorrava para cima como um chafariz. Vermelho! Odeio tirar sangue. Passo mal. Minha vista ficou nublada e o teto pareceu cair em cima de mim.

Acordei. Fábio, Geraldo e mais dois caras do escritório me carregavam pelo corredor.

— Ai, porra! Meu pé, porra! Cuidado!

Doía pra caralho. Eu tinha certeza de que ia morrer.

A viagem no carro do Fábio pareceu durar milênios. E a Roberta ainda foi no banco da frente chorando. Geraldo não veio. Não no nosso carro. 

Mas quando acordei na cama de um hospital público que cheirava a formol e barata morta, dois policiais estavam na porta. Ana segurava Júlia no colo enquanto Geraldo falava alguma coisa pertinho do ouvido dela. Fiquei pensando na Dara, a esposa do negão. Não era feia, tinha um corpo gostoso. Será que ela topava?

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