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Leia a primeira parte clicando aqui. 

    O que eu ia fazer com uma noite inteira sem a Duda pra conversar? Apreciar o silêncio? Ah! Pelo amor de deus, né? O que eu sou agora, algum tipo de budista? Não dava pra pensar nela morta. Não, não ela. Liguei o som. Alto. Bem alto. Minha mãe apareceu. Você quer me falar alguma coisa, amor? Quero. O quê? Põe a janta pra mim. Ela me olhou, triste. Aquele olhar já tava me dando nos nervos. Desculpa, mãe. Ela me beijou e saiu do quarto. Enquanto fechava a porta perguntou pela Duda. Eu disse que hoje ela não vinha. Não sabia o que dizer. Nem o que fazer. Não sabia mesmo. Rodei pelo quarto roçando os pés descalços no tapete fofo. Folheei livros. Liguei e desliguei o Spotify. Fiz apostas comigo mesmo e promessas pro Deus do Destino. Até que me joguei no canto da cama, abri o caderno e escrevi:

Duda,

Obrigado por ter dormido aqui e não ter feito igual aos outros que surtam quando um amigo precisa realmente de ajuda. Bem, não sei o que é apendicite, nem vou procurar no Google porque tô meio que apavorado/surtando. Mas o lance é que você tá na porra de um hospital. Numa maca. E tem um idiota de um playboy filhinho de papai que fez faculdade particular abrindo você com um bisturi bem nesse momento. E eu acho que eu me mato se não puder mais conversar contigo. Bem, eu não quero te chatear nem nada. Você tá com seu problemão aí. Mas acho que te devo isso pelo cuidado que você tem tido comigo.

O negócio é o seguinte: desconfio que meu pai decidiu morrer. Mas não é que ele tenha se matado, entende? Eu realmente não queria falar sobre isso, mas e se você morrer amanhã? Eu tenho que te contar de alguma forma… Ele não se matou. Não literalmente tipo Kurt Cobain que pegou uma espingarda, enfiou na boca e atirou. O que aconteceu… Cara, eu vou ter que voltar lá atrás… Eu sempre te falei que meu pai era muito fechado, né? Guardava tudo, tinha gastrite e tudo o mais. Daí que eu respeitava e também não falava muito com ele. Mas teve um dia… (E aí eu vou ter que te pedir desculpas antecipadas porque nunca te contei isso. O Marcelo vai ficar muito puto, mas foda-se. Ele provavelmente nem sabe que você tá aí à beira da morte).

Teve um dia, deve fazer três meses, que meu pai abriu a porta do meu quarto. Cara, ele NUNCA abre a porta do meu quarto. As poucas vezes que ele vem aqui sempre bate antes. Nessa noite ele entrou direto, acho que tava animado por alguma coisa. E o Marcelo tava aqui. Então, veja bem, a gente não tava se pegaaaando. A gente só tava abraçado. Meu pai não falou nada, só deu boa noite e fechou a porta rapidinho. Cara, o Marcelo sempre me fala que você é a fim de mim. Se for verdade eu quero morrer porque sou o maior idiota da história. Mas sei que isso não é verdade. E tem outra coisa, eu nem sou gay. Só senti vontade de abraçar o Marcelo. Ele tava com um perfume cheiroso. Deu vontade de abraçar e meter a cara no cabelo dele. Só isso. Meu pau nem ficou duro. Desculpa a sinceridade, mas é só pra você ter noção do que tava rolando na real.

Daí, a semana passou no maior climão. Eu evitava esbarrar com meu pai, e acho que ele evitava esbarrar comigo. Mas no fim de semana ele passou mal, lembra? Foi pro hospital e tudo. Ficou lá a noite toda. Soro, remédios etc. Quando voltou pra casa eu fui ajudar o coroa a ir pra cama. Quando deitou, ele me olhou nos olhos. Eu nunca vou esquecer. Acho que ele nunca tinha olhado dentro dos meus olhos antes. Pelo menos não daquela maneira. Ele falou assim, com a voz fraca de quem teve um princípio de infarto: Tá tudo bem? Eu só balancei a cabeça em positivo e não disse nada. Não foi a frase, foi o modo como ele falou. Eu sabia que ele tava falando do Marcelo. Eu sabia que lá no fundo ele tinha passado mal porque tava guardando rancor por ter um filho viado. Meu avô já tinha falado isso na nossa cara várias vezes: teu filho é um viadinho, eu não acredito que você criou um marica. Meu pai nunca respondia. Guardava. Na semana seguinte, a gente tava jantando, minha mãe, meu pai e eu. Sei que demorei pra contar isso. Desculpa, Duda. Você não merecia meu silêncio. Tu não sabe o quanto dói ficar segurando isso tudo. Mas eu não consigo, simplesmente não consigo. Às vezes eu fico com muita pena do psicólogo porque dá pra ver que ele tá lá todo solícito, até sofrendo por mim, querendo me ajudar, e eu fico cuspindo na mão dele. Com você é pior ainda. Você nunca me pediu nada, nunca me exigiu nada. Sempre minha companheira, me falando da sua família e me ensinando gramática e as coisas do mundo das mulheres. E eu nunca dando nada em retorno. Desculpa mesmo.

Mas então. Naquela noite eu tava jantando com meus pais. A gente tava até bem. Ninguém ligou a TV, tinha uma música no fundo que eu não lembro qual era, um troço meio jazz de elevador. O cheiro de molho de tomate com almôndegas tava impregnando o ar de um jeito que até o vizinho devia estar salivando. Meu pai tinha preparado as almôndegas. Eu ajudei minha mãe a fazer o molho e o macarrão. A gente encheu a barriga e até minha mãe bebeu vinho. Eu já tava com as bochechas quentes e com medo de falar besteira. Meu pai dizia que uma taça de vinho por dia fazia bem ao coração quando ele sentiu a primeira pontada. Porra de ironia do caralho, né? Não sei porquê, mas quando vi meu pai cair de lado a minha primeira reação foi dizer: desculpa. Não sei mesmo. Eu não tinha feito nada. Então ele enterrou a mão no peito, a unha quase entrando na carne. Minha mãe derrubou a garrafa de vinho e manchou a toalha da mesa. Dizem que mancha de vinho não sai. Eu fiquei sentado e não falei, mas pensei pra mim mesmo: desculpa. Minha mãe não sabia se acudia meu pai ou se pegava o celular. Eu continuava sentado, tipo paralisado, pregado na cadeira. Desculpa. Minha mãe pegou o telefone, discou e se abaixou junto ao meu pai que já estava estirado no carpete, os olhos bem abertos e o rosto todo contorcido de dor. Desculpa, eu pensava enquanto não me mexia, não ajudava, não fazia nada. Parecia que uma parte de mim… parecia que uma parte… uma parte de mim queria… queria… parecia que uma parte de mim queria que ele morresse. Desculpa. Minha mãe gritou alto. Aquele som nunca vai sair da minha cabeça. Foi um grito agudo, estridente, quase o grito de um animal, que entrou cortando meu ouvido. Senti vergonha que os vizinhos pudessem ouvir aquilo e pensar coisas erradas. Fiquei com vergonha do meu próprio pensamento. Desculpa. Foi depois do berro que levantei. Mas não consegui tocar meu pai. Nem na hora do enterro consegui tocar nele. Desculpa. Quando a ambulância chegou meu pai já não estava mais com a gente.

Desculpa, Duda. Desculpa não ter falado dessas coisas antes. Você me faz tão bem. E eu não quero te perder. As letras estão borradas porque eu molhei a folha sem querer, não repara. Vou te levar isso aqui amanhã. E você vai ler (Não na minha frente!). E depois a gente vai conversar sobre tudo. Vou dormir porque meus olhos já estão ardendo. Acho que nunca tinha escrito tanto à mão. Meu pulso tá doendo. Vou afundar no travesseiro.

Bjos. Fica bem.

Gabe.

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